terça-feira, 4 de novembro de 2008

De Bariloche a Bariloche

Lago em Nahuel Huapi, a 767 metros de altitude, com a Ilha Victoria ao fundo. Fizemos um passeio de catamaran com um vento " patagónico" a roçar o temporal!


Bosque de pinheiros das Montanhas Rochosas na Ilha Victoria, agora um pouco considerados "praga" porque a vegetação autóctone não cresce por baixo e afasta a fauna.


Bosque de Arrayanes: o único no mundo. Esta espécie cresce como arbusto, excepto aqui.




Vista do quarto, em Bariloche!



O Largo de Bariloche com um velho São Bernardo que acaba os seus dias a " vender" fotos com turistas, depois de uma vida a resgatar gente nas montanhas.




Notícias dos Estados Unidos


Tinha este ramo de girassóis pronto para festejar o último dia da presidência Bush nos EUA.
O que quer que venha com Obama, só poderá ser melhor!
Mas leiam isto agora:




E se Obama fosse africano?

Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles.
Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor.
Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós.
Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões.
Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz.
Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente.
Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos.
Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros?
Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa?
Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias.
Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?".
As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano?
São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes.
Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África.
No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente.
É lutar para que Obamas africanos possam também vencer.
E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

De Chipolletti a Bariloche

Chegados a Bariloche!

O té de Mate na viagem! feito na hora, bebido em grupo, à vez!


Dinossauros en "El Chocón" com Mónica Borile e Leticia Lopez (psicóloga que trabalha com Mónica, especialista em relações precoces e trabalho com famílias).
Estes fosséis foram descobertos recentemente e são dos mais bem conservados do mundo.



Guanacos, espécie de lamas mas maiores.


E dinossauros, com direito a aviso na estrada:)


Com um CD dos Kumara ( ver faixa lateral), que inclui o nosso amigo Nahuel Martín.
Nahuel ( quer dizer "tigre" em língua Mapuche) aprendeu a tocar com "um músico do norte", que lhe passou as melodias de viva voz, porque não sabe escrever música.
Ficaram bem entregues! Os sons são perfeitos, recapitulando as várias tonalidades dos ventos patagónicos, tão típicos por aqui!
E os Kumara não são amadores! A sua música contribuiu para a magia desta viagem !

Algum " verde" construido pelo homem, gota a gota, nesta estepe patagónica.


Afinal depois do " fim do mundo" ainda havia estrada para SUL!
Começando de baixo para cima, recapitulamos o percurso de Chipolletti até El Bolson, com paragem em Bariloche.







segunda-feira, 3 de novembro de 2008

De Chipolletti a Chipolletti IV


Alunos de Medicina da Universidade Nacional de Comahue-
Entre pares - Sessão e foto de conjunto :)



Alunos da Pós-Graduação na Escola de Medicina da Universidade Nacional de Comahue -
Foto conjunta e sessão " A sexualidade na adolescência, da investigação à intervenção na comunidade"




A Mónica Borile não é uma cidadã comum. Pediatra de profissão decidiu há anos deixar Buenos Aires por El Bolson Patagónia, junto com o seu marido também médico, e ainda sem filhos. Iam em busca de um lugar onde tudo estivesse por fazer e onde a sua profissão pudesse fazer uma real diferença.
Passadas quase 3 décadas, a Mónica é uma referência na Abordagem Integral da Saúde do Adolescente, na América Latina.
Muitas das Pediatras da Adolescência que fui encontrando aqui na América Latina, passaram-lhe pelas mãos quer dizer, frequentaram os seus cursos de "capacitação", e seguem-lhe o modelo de abordagem integral à saúde do adolescente.
O Curso de Pós-Graduação da Escola de Medicina da Universidade Nacional de Comahue (um ano) é frequentado por centenas de médicos, psicólogos, obsetrícias (parteiras), trabalhadores sociais e professores de toda a Argentina e de vários países da América do Sul.
Aliás só não tem mais alunos porque privilegia um ensino personalizado e porque os custos das deslocações são sempre elevados para os alunos, apesar de parte desta Pós-Graduação se passar online ( ver faixa lateral com informações) e da inscrição ser de apenas 600 dolares.
Há ainda o (enorme) grupo dos alunos do 1º e 2º anos de Medicina que fazem o seu crédito prático em Promoção da Saúde e que, depois da formação, fazem sessões regulares nas escolas para alunos, professores e pais.
Estes estudantes de medicina formam também alunos do ensino primário e secundário, que assim passam a actuar nas escolas "entre-pares", com supervisão.
Segundo estes alunos, muitos deles "caloiros", o maior benefício é para eles próprios, pela formação e apoio que recebem, pelo apoio que dão uns aos outros, pelo entusiasmo com que são recebidos pelos alunos mais novos e pelo modo como se sentem úteis.
"Cable a Tierra" chamou Mónica a estes jovens, inspirada numa canção conhecida por aqui . "Cable a tierra" são então jovens, um pouco mais velhos, que servem de figura de referência, apoiando os mais novos na busca por "uma âncora", um " cable a tierra"!

Notícias de Portugal

A Bárbara Wong é jornalista do Público, desde há muito conhecida pelo seu interesse e comeptência na área da Educação.

Pessoalmente gosto do seu discurso, do seu rigor e da sua pesquisa nesta área.
Publicou um livro que está agora mesmo a ser lançado em Portugal (ver também na faixa lateral).

Conhecida a equação dos problemas da Educação em Portugal, será que os pais podem ter um papel activo através da escolha da escola para os seus filhos?

sábado, 1 de novembro de 2008

De Chipolletti a Chipolletti III







Patagónia- Dinossauros e trabalho

Escola de Medicina da Universidade Nacional de Comahue/Patagónia; Faculdade de Psicologia num belo e decadente edifíco "Art nouveau" e visita a Los Bareales onde descobriram recentemente fósseis de dinossauros e onde visitámos o campus e o museu.



De Chipolletti a Chipolletti II





Na Patagónia: com a Mónica, até ao fim do Mundo!
( Nota: na rubrica " cobertura fotográfica" há hoje mais fotos)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

De Cipolletti a Cipolletti

Por aqui e por aí, temas actuais!


Uma pós -graduação sobre "O mal-estar dos docentes universitários" face à "imobilidade burocrática", e respectivas consequências para a saúde!


Ainda a Educação sexual :







Archives Dis Childhood



Nova publicação desta vez no Arch Dis Childhood/ BMJ, abstract disponível em:


http://adc.bmj.com/cgi/content/abstract/adc.2008.139915v1?eaf




Parabéns Helena!



Emotional, behavioural, and social correlates of missing values for BMI


Helena Fonseca 1*, Margarida Gaspar de Matos 2, António Guerra 3 and João Gomes Pedro 1

Objective: To examine the emotional, behavioural, and social correlates of missing values for Body Mass Index (BMI) in a nationally representative sample of Portuguese youth.


Design and Methods: Sample included 6131 6th, 8th, and 10th grade public school Portuguese students, age 11-16 years, who participated in the 2002 HBSC / WHO survey of adolescent health. Those who did not report their weight and/or height, were compared with their peers. Bivariate analyses of psychosocial and behavioural variables were conducted, comparing the two groups. Multivariate logistic regression was used to determine if the variables that were significantly associated with missing BMI values at a bivariate level would predict missing BMI, when controlling for all the others in the model.


Results: From the 6131 adolescents who answered to the questionnaire, 661 (10.8%) did not report either their weight or height or both. Gender was not associated with missing BMI. Missing values were significantly predicted by a younger age (aOR=2.56, 95% CI 1.99-3.29, P< 0.001), sedentary lifestyle (aOR=1.53, 95% CI 1.16-2.01, P< 0.01), poor body satisfaction (aOR=1.34, 95% CI 1.19-1.51, P<0.001), father absence (aOR=1.62, 95% CI 1.14-2.30, P<0.01), lack of friends of the opposite sex (aOR=1.65, 95% CI 1.03-2.66, P< 0.05), and by a poor perception of academic achievement (aOR=1.23, 95% CI 1.06-1.42, P< 0.01).


Discussion: Our findings suggest that those with missing values for BMI tend to have poorer body image, health behaviours, and social networks. These results have implications for potential bias in results in studies that do not account for missing BMI.






WHO Autumn School

Caros amigos e colegas,

Entre os dias 22 e 25 de Outubro decorreu em Siena (Itália) a primeira ‘Autumn School’ da Organização Mundial para a Saúde (OMS), subordinada ao tema ‘Developing Evidence-Based Practice for Health Promotion’.

Esta actividade formativa da OMS vinha sendo desenvolvida desde há alguns anos como ‘WHO Summer School’ no âmbito da Conferência Internacional dos Hospitais Promotores de Saúde (HPS) e este ano, a Rede da Toscânia dos HPS, juntamente com o secretariado internacional e a Universidade de Siena, organizaram a Autumn School, que visto o seu sucesso, será certamente repetida nos próximos anos.

Por agora, informo que as apresentações da Autumn School encontram-se no site do secretariado internacional da rede em:
http://www.who-cc.dk/news-1/who-autumn-school-08
site geral:
http://www.who-cc.dk/ .
No site do secretariado também poderão aceder a outras informações sobre as actividades, projectos e publicações da rede internacional.

Desejos de um óptimo trabalho para todos.
Um abraço,
Ana

WHO Collaborating Centre for Health Promotion Capacity Building in Child
and Adolescent Health
c/o Health Promotion Programme
Meyer University Children's Hospital



terça-feira, 28 de outubro de 2008

De Mendoza a Cipolletti III





Pegando outra vez na publicidade e nas suas perversões, fica um cartaz onde se diz que
Um amigo é como um psicólogo, apenas sem título” e dá um endereço electrónico tipo amigopsicologo.com.

Os conselhos são do estilo “se a tua namorada quer casar, diz-lhe que se case”, “ se andas a sair com duas miúdas, compra dois telemóveis”. O que se quer vender é uma cerveja!

Qua campanha tonta, sexista e ainda por cima potencialmente banalizante do que é um apoio psicológico.


De Mendoza a Chipolletti II




Pelas ruas de Mendoza (provavelmente por toda a Argentina), à boleia de um cartaz do Ministério da Saúde onde se apela “consulte o seu médico” para controlo do cancro da mama e do útero (foto), aparece massivamente um outro cartaz (foto) com uma actriz muito conhecida e sua filha, “ uma em seis mulheres morre diariamente…” apelando para a tal consulta e a tal vacina.

No ano passado houve uma campanha do Ministério da Saúde para a vacinação das meninas contra a Rubéola, este ano é a vez dos rapazes “Vamos acabar com a rubéola na Argentina” dizem os cartazes), provavelmente confundindo com campanhas nacionais deste tipo, as mães de meninas a partir de 9 anos e as jovens dos 18 aos 26 apareceram massivamente nos hospitais e centros de saúde, a pedir que as vacinassem… Não queriam que as suas filhas fossem “uma das seis”. Mas não sabiam, que a vacina custa 1000 pesos (cerca de 250 euros).
Apesar do ar oficial e “não lucrativo” das Associações anunciadas no cartaz, a verdade é que divulgam um serviço que, não sendo acessível, pode perversamente servir para alarmar… culpabilizar…!

(mensagem implícita: “A população foi abundantemente informada, se as filhas vierem a ser uma das seis é porque as mães não tiveram 1000 pesos para lhe dar a vacina!”) .

Mas não há respostas públicas!
Não devia isto ter sido feito de outra maneira?
Nota: para quem gosta das fotos turísticas publicámos hoje mais um conjunto, na faixa lateral.

De Mendoza a Chipolletti



La noche en la isla

(…)
Tal vez tu sueño
se separo del mío
y por el mar oscuro
me buscaba
como antes
cuando aún no existías
cuando sin divisarte
navegué por tu lado,
y tus ojos buscavan
lo que ahora
-pan, viño, amor y colera-
te doy a manos lhenas

(...)
He dormido contigo
toda la noche mientras
la oscura tierra gira
con vivos y con muertos,
y al despertar de pronto
en medio de la sombra
mi brazo rodeaba tu cintura.
ni la noche, ni el sueño
pudieron separarnos

(...)



(Pablo Neruda, Los versos del capitán, Julho 1952)

De Mendoza a Mendoza III



Ainda a educação sexual, a sexualidade e saúde sexual e reprodutiva.

Quem diria que Mendoza, com cerca de 100 mil habitantes, podia receber 3 mil médicos ginecologistas para o “XIX Congreso Latinoamericano de Obstetrícia y Ginecologia ( F.L.A.S.O.G. 2008)”.

Por casualidade o Simpósio do primeiro dia era exactamente sobre “ La Salud Reprodutiva en la Adolescencia”, e fui, no âmbito de uma reunião preparatória para um Congresso da SAGIJ (Sociedade Argentina de Ginecologia Infanto Juvenil), que terá lugar em breve em Buenos Aires e onde participarei também.

O Simpósio foi interessante com 3 apresentações “direitas ao assunto” : contracepção na adolescência (José Alcione, Brasil), o aborto na adolescência (Jorge Pelaez, Cuba) e o HPV (Ruth Graciela, Panamá).

Este simpósio teve um formato curioso, o debate público foi substituído pelo comentário de especialistas convidados, de elevado mérito tiveram 5 minutos cada um para comentários às apresentações.
Foi com entusiasmo que vi como em 5 minutos se pode dizer o essencial (para recordar o “massacre” de algumas reuniões de trabalho intermináveis onde se passam horas a patinar no gelo e saímos como entrámos, apenas um pouco mais irritados!).


Assim o Dr.Ramiro Molina da CEMERA (que visitei em Santiago do Chile) e actual Presidente da FIGIJ (Federação Internacional de Ginecologia Infanto-Juvenil), e o Dr.Enrique Pons (Uruguai).

Dos comentários sublinho:

(1) a necessidade de estudos internacionais para conhecimento do perfil dos(as) adolescentes nos problemas, mas também no dia-a-dia, conhecimento da sua percepção de saúde, de bem-estar, de qualidade de vida.
(2) a necessidade de uma educação sexual atempada: em geral a adolescente apenas recorre aos serviços de saúde sexual e reprodutiva, após a primeira relação sexual, expondo-se assim a riscos escusados
(3) a necessidade de inclusão urgente dos jovens pais, nas intervenções na área da gravidez na adolescência (pais “grávidos”)
(4) a discrepância entre os países da América Latina em matéria de legislação na área do aborto
(5) a falta de eficácia, mesmo das medidas autorizadas pelas leis dos países em matéria de Interrupção Voluntária de Gravidez, que ocorre por questões logísticas ou de recursos humanos
(6) a vacina HPV não deve ocasionar a eliminação dos habituais testes de rastreio
(7) a necessidade de se evitar que o HPV seja o novo vírus do “controlo” da sexualidade.




Nota:
Na faixa lateral vamos incluindo links de interesse em cada país.
Hoje mesmo para além de mais links da Argentina, incluimos a newletter do Centro da Malária e Doenças Tropicais, onde é possivel inscrever-se e receber semanalmente, e o powerpoint com as fotos turisticas de São Paulo/ Brasil. As do Pantanal vêm a seguir.

domingo, 26 de outubro de 2008

De Mendoza a Mendoza II

Ponte del Inca - Fenómeno de erosão natural

Aconcágua - com a sua nuvenzinha "privativa" à volta.
Emocionante vê-lo aqui mesmo, a 30 km de nós ... quase 7000 metros de altitude!
O João Garcia já esteve certamente por aqui. Mesmo agora vimos um grupo nos preparativos de partida, não sabemos se para ir até ao topo!


De Rapa Nui a Valparaíso

Os Moai, da Ilha da Páscoa ("Rapa Nui") em Valparaíso, por oferta da região ( só agora chegou a foto!).

Estranho destino o deste povo que, segundo consta, se extinguiu por ter desertificado a ilha, cortando árvores sem a devida substituição, para o transporte destas estátuas gigantescas para a beira-mar. Paradoxalmente estas estátuas destinavam-se à sua protecção!

sábado, 25 de outubro de 2008

De Mendoza a Mendoza



Estamos agora em Mendoza (uma das cidades produtoras de vinho na Argentina, com castas como o Malbec que por aí não temos).
Ontem o passeio do Chile aqui foi fantástico, 9 horas de autocarro, daqueles com poltronas e serviço de almoço, muito confortável.

A paisagem era de tirar a respiração, sempre no meio dos Andes, subimos do lado do Chile, e descemos do lado da Argentina.

Há um mês ainda estava tudo cheio de neve, agora começa a derreter formando quedas de água de grande velocidade e força por autênticas ravinas. As cores variam entre o branco da neve e o ocre da terra, que às vezes parece esculpida outras derretida.

Passamos várias estações de esqui, agora fechadas com pistas de uma inclinação invejavel para "espertos".

Na fronteira, já não viamos coisa assim há muitos anos, toca a abrir malas , revolver, desmanchar, mostrar tudo, arrumar tudo, um tempão, bastante irritante!

Ontem lembrei-me que aqui há uns tempos me tinha apetecido contar uma história, mas quis deixar uns dias e alguns países para manter o anonimato. Mas agora vem mesmo a propósito da celeuma renascida sobre a educação sexual nas escolas em Portugal.

A história começa quando me resolvo ir cortar o cabelo, o que como se sabe, é um risco num local desconhecido.

O jovem que se ocupou de mim perguntou as coisas habituais, de onde vinha e o que fazia mas, à menção que era psicóloga olhou para mim encantado e confessou que andava há anos para consultar uma, mas não conhecia o "ramo" e que queria mesmo muito falar comigo. E começou imediatamente a contar a sua história.

Então, eram sete irmãos e ele, com 24 anos era o mais velho. Moravam todos com a mãe e ele era o ganha pão daquela família, idolatrado pelos irmãos e pela mãe, porque do pai nenhum se lembrava.

O drama deste jovem com 24 anos, homosexual, era que em casa ninguém poderia nem imaginar a sua orientação sexual fazendo-o sentir-se sempre só, e muitas vezes culpado, enfim sempre que "abandonava" a família para sair com o seu grupo.

Como a sua situação era secreta, não podia ter um namorado estável, com quem tivesse uma vida social, sexual e familiar. Assim, tinha apenas acesso a relações episódicas, e era em geral muito assediado por homens mais velhos, que não lhe agradavam porque, dizia, apesar de já ser um pouco calvo tinha apenas 24 anos e gostava do convívio dos da sua geração.

Estava muito deprimido, achava-se excelente no seu emprego, achava-se um excelente pai para todos os seus irmãos e irmãs, mas não tinha coragem para seguir a sua vida e os seus sonhos, porque não ousava, nem achava que tivesse o direito de chocar a família, e, assim sendo, não podia fazer parte de um casal apaixonado e estável, e ficava confinado a relações episódicas e não gratificantes.
Enfim, esta situação fica para ilustrar que a recusa da educação sexual nas escolas, limita também o direito à diferença. Para quando todos diferentes... todos iguais?
Esta situação insólita, a mim garantiu-me um (excelente) corte de cabelo de 90 minutos.

Penso que para este jovem foi importante constatar que pelo menos para alguns, a orientação sexual de cada um faz parte do direito de cada um à diferença.

No fim brindou-me com um grande sorriso, agradeceu e declarou que eu não podia nem imaginar como aquela conversa tinha sido importante para ele.

Olhei e, com efeito, pelo menos a culpabilidade parecia ter-se ido!

De Santiago a Mendoza

Outra coincidência para o dia de hoje: os 50 anos dos "Estrunfes" ( aqui chamados "Pitufos").
Tania e Mariana, lembram-se?




A Mariana faz hoje anos... a Margaridinha também...


Aqui fica a Margaridinha, na foto de cima com a sobrinha, ambas de costas porque não consegui encontrar nenhuma foto meia desfocada...


A Mariana aqui fica numa versão de há uns anitos!.

Parabéns às duas, aqui da Argentina.

Educação sexual nas escolas : episódios recorrentes

Pronto, já cá tardava... lá volta a Educação Sexual à primeira fila !...
O que é crítico neste assunto, é mesmo ainda ser um "assunto" ... mais: um assunto que consegue provocar tal polémica, tal falta de serenidade e tal falta de serena e sustentada inclusão nas rotinas educativas na área da saúde, da cidadania e do desenvolvimento pessoal e relações sociais! Os jovens são sempre os principais prejudicados, raramente ouvidos, mas de quem depois sempre se espera que façam sínteses pessoais a partir destas polémicas recorrentes!

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

De Santiago a Santiago V

As escolas de antigamente! ( ver em baixo)


Exposição no Centro Cultural de la Moneda. No século XIX índios da Patagónia foram "exibidos" no Jardin d'Acclimatation em Paris, como espécimes vivos de história natural(...)
Ao lado o Palácio de La Moneda, a lembrar a história mais recente do Chile.






Mesmo no ínicio desta mensagem, detalhe de uma foto, no Museu de Belas Artes. Lamentavelmente não consegui recuperar o nome do(a) autor(a), mas aqui fica, como contributo à mudança urgente de crença, dos que continuam a dizer que a educação de "antes é que era boa".
Antes era assim!... e mesmo assim para uns poucos, priviligiados.








Xadrez na rua : uma paixão comum a vários estilos de vida e classes sociais: no coreto da Praça de Armas


O Trabalho

Hoje foi a vez do Serviço de Saúde Infanto-Juvenil do Hospital Roberto de lo Rio, em Santiago, o único Hospital com internamento de pedo-psiquiatria do Pais. Tem 17 camas para internamento e segue crianças até aos 17 anos e 11 meses. Os internamentos são de curta e média duração. As crianças têm apoio de uma equipa pluridisciplinar (pediatra, psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional, enfermeiro) e têm apoio de voluntárias do Hospital para os tempos livres.

Fica sempre a tristeza de ver tanta dor psicossocial, uma dor que adoece a mente (aparentemente) para o corpo não sofrer tanto. Quando se trata de crianças é confrangedor ver tão pouca idade associada a tanto sofrimento. Sim, porque aqui como aí uma boa parte dos casos têm a ver justamente com situações psicossociais de infortúnio.

Lembrei-me do jovem investigador da ARCIS que se propõe fazer uma tese em Psicologia argumentando que o "Direito da Criança" é na nossa realidade social o "Direito do Direito", que deixa a criança de fora, exposta e "sem direitos".
O exemplo mais flagrante são, claro os casos de negligência e maus tratos, abusos físicos e sexuais nas famílias ou com a cumplicidade das famílias.

Fiz uma apresentação/debate aos profissionais do serviço sobre a "Saúde mental na Infância e na adolescência: estudos portugueses e desafios emergentes", onde falei do nosso trabalho em Lisboa. Falei dos novos desafios emergentes em Portugal, aqui contaram-me da alarmante subida de casos de tentativa de suicídio entre adolescentes nos últimos anos.
Uma vez mais durante a discussão surgiu, entre outros temas a questão dos direitos da criança (até chamada técnicamente "Menor", e o seu Tribunal chamado técnicamente "Tribunal de Família").
Mas que direitos têm a criança quando a família é o principal agente abusador? se se retira desta a família, que alternativas restam? e que miséria humana leva os progenitores a aniquilar a sua descendência, ou a usá-la para benefícios económicos ou sociais.
Preferimos acreditar que a família já não sofre apenas porque já "nem tem por onde sofrer", mas uma vez mais é a criança que fica esfacelada física e psicologicamente, e sem horizontes de remediação, quanto mais de um desenvolvimento pessoal e social.

Esta reflexão veio a propósito da conversa de ontem sobre os Direitos da Criança e da visita de hoje... mas não é um problema daqui do Chile, é um problema de todo o mundo e, embora seja seguramente um problema de miséria psicossocial, nem sempre é um problema da pobreza, nem da toxicodependência.
É sempre uma violência e quando se trata de crianças é insuportavel.

No passeio
Na praça de Armas em Santiago, um coreto onde se joga xadrez.

O que tem graça é que se vêem executivos "fardados" lado a lado com "sem abrigo" exibindo alguma falta de higiene corporal, jogando lado a lado versões de xadrez 5 minutos, com contador de tempo e igualdade de oportunidades.
Queriamos ir ao teatro ver uma peça "alternativa" de teatro multimedia "Sin sangre" mas está esgotado.
Os teatros só abrem de quinta a domingo e no cinena, aqui como aí, as salas ficam nas galerias comerciais só vimos as grandes produções pouco apetecíveis. Vai estrear amanhã o "Ensaio sobre a cegueira" ( aqui "Ceguera"), esperamos vê-lo na Argentina.

Conseguimos ver o clássico de Arthur Miller - "La muerte de un vendedor", pelo Teatro Nacional Chileno, numa sala (Teatro António Varas) mesmo ao lado do Palácio de La Moneda. Uma reflexão interessante sobre as diversas expectativas face à vida, os segredos de família... a encenação estava muito bem conseguida, montada no palco como uns andaimes com várias divisões, os actores são excelentes.
Gastronomia
Cazuela de ave, pastel de choclo, pastel de paita, palta (pera abacate), empanadas, vinho chileno.

A primavera em Santiago continua magnífica, de dia e de noite.
Vamos amanhã embora e parece que ainda faltam mil recantos extraordinários, mil pormenores para descobrir, mil rotinas para seguir, mil pessoas para conhecer!...
Já esquecidos da entrada atribulada (ai a Leika desaparecida no metro!...), gostámos mesmo MUITO desta cidade... estamos tristes de ir embora.
Podiamos viver aqui um bom par de anos!